A encruzilhada de um legado

Por Bruno Fares | 04/01/2017

Em 48 segundos, o triunfal retorno de Ronda Rousey se desmantela pelos punhos da brasileira Amanda Nunes num filme de terror e drama cuja trilha sonora foi composta por gritos desesperados de seu treinador ao lado do octógono. A mulher indestrutível com um reinado à frente do MMA feminino que parecia ser eterno, sucumbindo como uma criança assustada, sem nem esboçar reação. Como chegamos até aqui?

Falar do legado dessa mulher é fácil, todos puderam ver o domínio na maior organização do mundo por quase três anos. Os atentos acompanharam ainda mais cedo, lá em 2011, um furacão chegando no finado Strikeforce, vindo de três vitórias no esporte amador que, assim como os quatro primeiros triunfos no profissionalismo, não viram a casa do minuto sair do 00 no relógio. Não que Rousey tenha vindo do nada esportivo. Judoca de alto gabarito, foi bronze nas Olimpíadas de 2008, prata no Mundial e ouro nos Jogos Pan-Americanos em 2007, feitos já consideravelmente notáveis no âmbito das artes marciais. Isso sem mencionar a revolução comercial pela qual foi responsável, que fica para outra coluna.

Após todo domínio e obliteração causado pela sequência de DOZE vitórias por interrupção, das quais apenas UMA viu o segundo round, dois cinturões conquistados e de ser lançada ao status de estrela esportiva mundial, a menina outrora invencível é implacavelmente nocauteada duas vezes seguidas, gerando pedidos de aposentadoria por parte de críticos e fãs, inclusive preocupados com sua saúde mental, uma vez que já declarou sofrer de crises depressivas, além de ser filha de um pai vítima de suicídio.

Para onde vai Ronda Rousey? E mais: para onde poderia ir a maior campeã feminina de todos os tempos? Coloquemo-nos no lugar da americana, dentro de sua cabeça, num exercício de reflexão pessoal, e não numa vontade de fã, para tentarmos prever.

A opção mais lógica seria assumir a conclusão de seu legado. Todo grande campeão, em qualquer esporte, passa por isso. Para usarmos dois exemplos no próprio MMA, tivemos Fedor Emelianenko dominando o cenário global dos pesos pesados por 10 anos até sofrer três derrotas acachapantes no Strikeforce e ser destronado; ou que tal Anderson Silva, dono do maior reinado da história do UFC, destruindo tudo e todos até ser violentado duas vezes seguidas pelo ascendente Chris Weidman e cair para o já veterano Michael Bisping? É a passagem de trono clássica do esporte, que não se limita ao mundo das lutas apenas. Aparecem novos valores, novas táticas, novas técnicas, que derrubam um domínio, por mais que parecesse intransponível.

Treino Aberto UFC 190 Ronda Rousey

Problema financeiro não deve existir para quem já faturou facilmente mais de 20 milhões de dólares (pelo menos um quarto disso apenas no UFC 207) durante sua brilhante carreira. Futuro profissional também não. Ronda Rousey é uma celebridade estadunidense, um nome conhecido de jovens a donas de casa. Pode não ser uma grande estrela do cinema, como alguns dizem, mas já participou de quatro filmes, seriados de televisão, lutas dramatizadas (WWE), além de ter mais dois longas já engatilhados para o futuro: 22 Mile e o reboot do filme Matador de Aluguel, estrelado em 1989 por Patrick Swayze, no qual inclusive será a personagem principal. Ou seja, oportunidades ainda continuam aparecendo no mercado do entretenimento.

E se um dia essas oportunidades se esgotarem, que tal abrir sua própria academia na Califórnia? Seria um sucesso garantido, fazendo o que gosta e, como sua mãe apontou, sem levar soco na cara. Mas e a cabeça de atleta? De quem treina judô desde os 11 anos de idade e há quase 20 só sabe o que é treinar, lutar, treinar, lutar, treinar, lutar? Será que ela não sentirá falta da emoção? Da adrenalina? BJ Penn está aí para servir de exemplo.

Isso nos leva à segunda opção, a renovação e ressurgimento. Por que não alçar um novo voo? Em fevereiro, serão 30 anos completados, uma idade ainda bastante competitiva, que não a impediria de lutar por mais alguns anos – até porque o jogo da ex-campeã não é baseado em velocidade e movimentação, mas sim no encurtamento, na força física e na luta agarrada. Uma troca de academia principal para trabalhar com um grande treinador, um retorno do apoio de sua mãe para ajudar com a parte psicológica, um aprimoramento na defesa de golpes retos. Um retorno no segundo semestre de 2017 contra um adversária de meio de tabela, uma vitória para restabelecer a confiança e a chance de disputar o título para uma última volta, em 2018. Ou que tal uma última luta com Miesha Tate?

Claramente Ronda, outrora um enigma indecifrável, parece um livro aberto de previsibilidade dentro do octógono. A incapacidade técnica de seu péssimo treinador Edmond Tarverdyan impede adaptações em sua abordagem de luta de uma maneira que possibilite que ela volte a por em prática o jogo agarrado mais mortal já visto no MMA, pelo menos nos últimos tempos. Mas, sim, é possível uma reviravolta mesmo diante de tal quadro, como bem diagnosticou o lendário treinador de boxe Freddie Roach após o UFC 207:

“Ela (Rousey) não faz muito bem a parte em pé e todo mundo agora tem seu número (expressão em inglês que significa que todos conhecem seus pontos fracos). A questão é, quando você é surrado daquele jeito, às vezes você consegue voltar, às vezes não consegue. Depende da pessoa.

E aqui não se trata em fazer uma alta renovação técnica aos 30 anos de idade, mas sim uma adequação sistemática de sua abordagem. Imaginem Rousey sendo auxiliada por grandes estrategistas do MMA mundial, como Greg Jackson, Firas Zahabi, Matt Hume, entre outros. A americana aparentemente não teria dificuldade em apresentar novamente forma física invejável, necessária para a sua proposta de luta. Uma aproximação menos ortodoxa, um jogo de pernas mais fluido, uma guarda para golpes retos efetiva. Alguém duvida que essa soma não a impulsione de volta ao trono?

Não sabemos se é sonhar muito. Será já passou o tempo da judoca e é melhor ela se resignar com isso? Difícil concluir. Mas eu gostaria de ver um ressurgimento para um último voo de Rousey, para que a última imagem da maior campeã da história do MMA não seja um espancamento inerte de uma lutadora assustada, seguido de uma saída rápida e silenciosa do octógono que a consagrou.

No entanto, se quiser parar, já somos todos gratos, Ronda. Coloque um sorriso no rosto.