A derrota de José Aldo e o maior adversário do MMA brasileiro

Após a nova derrota de José Aldo para Max Holloway, no UFC 218, não faltaram justificativas para o resultado. Acaso, coincidência, falta de motivação e lutas armadas foram levantadas. o que parece ser o roteiro de quando um brasileiro perde uma luta importante. Será que o universo conspira contra nossos lutadores?

“Não existem coincidências” e “não existe acaso” são frases repetidas exaustivamente. Se existem ou não, é mais um daqueles mistérios da vida que só os séculos de debate já garantem uma preguiça imensa de entrar no mérito da questão. Porém, existe uma ideia, daquelas que não abandonam a mente, daquelas que evitamos pensar porque sabemos que as conclusões podem dar dor de cabeça, daquelas que a alcunha de “chato” é sempre lançada para o pensador inquieto. Como a teimosia é irresistível, eis a dona dúvida: será que todas as vezes que um brasileiro importante perde uma luta, foi obra do acaso?

Anderson Silva “brincou” e “perdeu por azar”. Vitor Belfort perdeu porque não quis quebrar o braço de Jon Jones. Fabricio Werdum estava empolgado por lutar em Curitiba. Ronaldo Jacaré foi sacaneado com o UFC o enrolando para que chegasse na luta já cansado pela maratona de combates. Renan Barão e Rafael dos Anjos receberam golpes de sorte. Lyoto Machida foi prejudicado pelos juízes. Maurício Shogun não estava de sunga branca e não tem mais vontade de treinar. Rodrigo Minotauro estava machucado. O UFC não quer brasileiro campeão. A luta foi comprada. Recentemente, José Aldo recebeu um golpe de sorte aos 13 segundos e perdeu as duas lutas para Max Holloway porque não queria mais lutar, estava sem vontade de seguir no MMA.

Ora, parece que, além de Deus, o danado do Acaso também é brasileiro. Ou talvez esteja passando férias no Brasil desde o dia em que o pé de Anderson encontrou o queixo de Belfort e não tem mais previsão de volta para casa. Enfim, é tanta coincidência que parece mais uma teoria da conspiração dividida em 15 partes que vemos por aí no YouTube. Mas será que além dessa conspiração dos astros, do destino, da luz e das trevas, existe algum outro motivo pelo qual isso acontece?

Nós sempre dizemos que brasileiro não gosta de esporte, gosta de ganhar. É bem provável que o brasileiro em geral não tenha apreço mesmo é por perder. E se isso fosse apenas no esporte, até que dava para resolver, mas, mais chato que debater a existência da danada da coincidência, é entrar nessa questão.

Então vamos ao que interessa: será que não tem nenhuma chancezinha de um brasileiro perder porque o outro é melhor? Será que Chris Weidman não tem mérito de ter induzido Anderson com os pés paralelos e enganar o olhar do então campeão com um soco despretensioso com as costas da mão somente para o gancho fatal vir invisivelmente? Será que Jones ter colocado o outro braço por dentro do armlock de Belfort não foi a ideia que impediu que seu braço explodisse pelos ares? Será que ser preterido por um atleta que te venceu não é motivo para ele receber a disputa de cinturão e não você? Será que aquela “mão que foi sorte” não é fruto do beijo apaixonado entre a competência e a oportunidade? Será que o UFC não tem mais o que fazer além de armar contra brasileiros e gastar fortunas inimagináveis para combinar lutas? Já repararam que nunca combinam nenhuma lutinha sequer para que um brasileiro vença? Vencemos sempre por mérito e perdemos sempre por algum fator externo provocado pela onipotência da trindade Acaso-Coincidência-Armação.

O momento em que Anderson Silva vai para o tombo e leva junto parte da popularidade do MMA no Brasil

O momento em que Anderson Silva vai para o tombo e leva junto parte da popularidade do MMA no Brasil

Antes que a alcunha de chato e de só querer ter razão seja arremessada contra mim, vamos a um pequeno estudo de caso. Para isso, precisamos entrar numa suposição, ou, como diriam os acadêmicos, um pressuposto. Imagine, querido leitor, um mundo fantástico onde o Acaso, a Coincidência e as Armações não existam. Antes que o ar adentre seus pulmões, lembre-se: é apenas uma suposição.

O nosso estudo de caso será sobre a luta principal do UFC 218, a revanche entre José Aldo e Max Holloway.

Aldo é uma lenda e um dos maiores lutadores da história, é bom deixar isso claro, vinha sendo objeto de estudo da concorrência por mais de cinco anos. Até que um dia a noção de distância de um certo irlandês fazedor e cumpridor de promessas obliterou um gancho afobado. Timing e precisão venceram com todos os méritos e um dos melhores sistemas defensivos foi escancarado por um golpe desequilibrado (entendam com quiser). Após um espetáculo oferecido pelo brasileiro na segunda luta contra Frankie Edgar, Aldo encontrou um havaiano que, através de um grande volume de socos, movimentação e um ritmo alucinante, o nocauteou duramente.

Chegamos então ao UFC 218. José Aldo encheu os corações tupiniquins de esperança com a promessa de que viria diferente, focado e estratégico para a revanche. O final da história foi uma versão que demorou um pouquinho a mais para pegar no tranco da primeira luta. Mais do mesmo ritmo alucinante, mais do mesmo volume e mais um nocaute técnico violento.

Essa seria uma leitura bastante razoável da peleja nesse mundo onde nossa famigerada trindade não existe. Porém, o que aconteceria se a luta tivesse ocorrido no mundo real?

O resultado seria o mesmo. Mas será que a responsabilidade seria de mais uma traquinagem da sorte?

Conor McGregor vê José Aldo desabar a seus pés

É aqui que o ceticismo tenta reunir argumentos para se tornar um exorcismo. De acordo com o dicionário, o acaso é a “ocorrência de acontecimentos incertos, eventuais ou imprevisíveis”. Poderia ser levantado o argumento de que, numa revanche, as chances de algo do tipo ocorrer é menor, mas o que mais reforça o ritual exorcista é que a luta se desenrolou e acabou exatamente da mesma forma que a primeira. Assim como Minotouro e Minotauro são iguais, com a diferença de um estar mais acabado que o outro e lutarem em categorias distintas, Aldo foi surrado por Holloway através da imposição do seu ritmo, volume de golpes, insistência do brasileiro em trocar socos com um lutador que tem mais volume e o uso de um pivô de boxe que o deixava plantado, sem mobilidade. E assim, como no caso dos irmãos Nogueira, José saiu mais acabado do que no primeiro encontro.

José Aldo não mudou quase nada no seu jogo para a revanche e insistiu nos mesmos erros que o levaram à primeira derrota. Uma das definições de loucura é tentar fazer as mesmas coisas e achar que encontrará um resultado diferente. Essa foi a “loucura” de Aldo. Não foi obra do acaso, do azar, da maldade do UFC, do dinheiro, da falta de vontade, mas somente fruto de uma mentalidade que acredita em todas essas obras do acaso, que não foram todos esses detalhes que o derrotaram, mas somente aquele “golpe de sorte”. A coincidência não muda o resultado das lutas, mas acreditar nelas, com certeza sim. Tivemos uma perfeita demonstração disso na revanche. Por acreditar na sorte do adversário, recebeu o azar da competência e do mérito.

Para não dizer que é um caso isolado, tivemos exatamente o mesmo cenário nos dois combates entre Renan Barão e TJ Dillashaw. O brasileiro foi implodido pela movimentação do adversário e duramente nocauteado. A justificativa não foi a dificuldade de movimentação e a técnica polida do oponente, mas a famosa “mão que entrou”. Revanche marcada e, como era esperado, a tal da mão (e muitas outras) entrou e vimos um replay mais violento do primeiro encontro. Mas existiram coincidências, a mesma equipe e a mesma negação da qualidade do adversário.

Até quando essa mentalidade vai permanecer por aqui? Imagine a evolução que o esporte nacional teria se reconhecêssemos nossas falhas e debilidades, e que tudo isso fosse usado para aprender e evoluir. Por enquanto, seguimos com a mesma mentalidade, as mesmas desculpas, a mesma cegueira e fatalmente os mesmos resultados.

Coincidência?

  • James sousa

    Pior e que parece que além de torcedores algums treinadores de lutadores brasileiros também acreditam nessa história de a ” mão entrou ” ai tem a revanche e os lutadores apresentam os mesmos erros da luta anterior

    • Franklin Stein

      Isso é o q mais me espanta… escutar profissionais do mais alto nível como o Dedé e o Anderson falarem que foi um “golpe de sorte”, uma “mão que entrou” é muito desanimador… Os feitos deles são sempre fruto do trabalho duro, da genialidade mas o mesmo não vale pros adversários, aí o mérito é sempre do “acaso”.

      • Pedro Carneiro

        E o acaso só aparece quando a gente perde, quando ganha é genialidade

    • Fannine

      Dedé é campeão em mascarar as derrotas dos atletas da Nova União…

      • Pedro Carneiro

        E é um cara que tem competência pra não precisar disso

    • Pedro Carneiro

      Porque será que a mão sempre entra? Curioso isso

  • William Oliveira

    Pera aí que isso aqui é verdade:
    “Maurício Shogun não estava de sunga branca e não tem mais vontade de treinar.”

    Haha

    • Pedro Carneiro

      Não tinha visto por esse viés. É vdd! hahahaha

  • Anderson Cachapuz

    “o beijo apaixonado entre a competência e a oportunidade”
    Porra, que bela frase! Digna de Nelson Rodrigues.

    A Nova União é o perfeito exemplo de que algo precisa mudar no MMA Nacional, primeiramente e antes de tudo, na mentalidade..
    Desde o caso do Barão que eu, você e vários outros levantamos essa bola…. e não se observa evolução, nada!! Uma pena…

    • Pedro Carneiro

      O primeiro passo é reconhecer que há um problema…

  • Fannine

    O fã médio brasileiro sempre dispara essas teorias, não só no MMA, praticamente em todos os esportes… O que muito me incomoda é os treinadores e mídia especializada se comportar como os fãs médio. Precisamos evoluir. Belo texto!

    • Pedro Carneiro

      Sim, com certeza. E já reparou que nas lutas que os brasileiros ganham nunca tem nenhuma teoria?

  • Fernando Chaves

    Baita texto !!!!

    • Pedro Carneiro

      Obrigado, meu querido!

  • Malk Suruhito

    “Se vocês soubessem o que aconteceu nos bastidores do UFC XXX, ficariam enojados” by Gazzeta de los Sports

    • Pedro Carneiro

      Talvez, isso explique a razão do lutador Minotauro ter declarado a seguinte frase: “Se as pessoas soubessem o que aconteceu na derrota do Aldo, ficariam enojadas”.
      Todos os brasileiros ficaram chocados e tristes por Aldo ter perdido a revanche, em Detroit. Não deveriam. O que está exposto abaixo é a notícia em primeira mão que está sendo investigada por rádios e jornais de todo o Brasil e alguns estrangeiros, mais especificamente Wall Street Journal of Americas e o Gazzeta delo Sport e deve sair na mídia em breve, assim que as provas forem colhidas e confirmarem os fatos.
      Fato comprovado: José Aldo VENDEU o cinturão do UFC. O staff do lutador foi avisado, às 13:00 do dia 1 de dezembro (dia da luta), em uma reuniao envolvendo o Sr.Dana White , o corner Pedro Rizzo e o sr Lorenzo Fertitta. A princípio muito contrariados, os corners e Aldo se recusaram a trocar o cinturão.
      A aceitação veio através do pagamento total dos prêmios, US$ 70.000,00 para cada membro do staff, mais um bônus de US$ 400.000,00 para toda a equipe, num total de US$ 23.000.000,00 (vinte e três milhoes de dólares) através da empresa Nike. Mesmo assim, Aldo se recusou a participar.
      A sua situação só foi resolvida após o representante da Nike ameaçar retirar seu patrocínio vitalício do lutador, avaliado em mais de US$ 90.000.000,00 (noventa milhões de dólares) ao longo da sua carreira. Assim, combinou-se que Aldo seria derrotado pro pontos, porém a apatia que se abateu sobre o lutador fez com que Max Holloway, que absolutamente nao participou desta negociaçao, nocauteasse Aldo.
      O Sr. Dana White, chefão do UFC, aplaudiu a colaboração da equipe de Aldo, uma vez que a mudança de cinturão trouxe equilíbrio para a categoria. Garantiu também, ao Sr. Pedro Rizzo, que Aldo terá seu caminho facilitado quando quiser ser campeão novamente.

  • Carlos André

    Parabéns por expor verdades.

    • Pedro Carneiro

      Obrigado, fera

  • Patrick Bitencourt

    Não sabia a respeito dessa suspeita de negociação de cinturão, bizarro.

  • Danilo

    Baita texto. Bateu na tecla que muita gente precisa refletir a respeito.
    Acho que esse comportamento de grande parte dos profissionais do MMA brasileiro se dá pelo fato de terem ficado mal acostumados com as glórias do passado, pois houve um tempo em que o MMA brasileiro era um gigante. E o era pois houve um tempo em que esse profissionais trabalharam muito duro pra alcançar o sucesso, e tanto sucesso acabou trazendo acomodação, fez todos acharem que já tinham feito o suficiente.
    Mas a gente sabe que não é bem assim, que o esporte evoluiu, que muita gente seguiu trabalhando duro pra acompanhar essa evolução e agora esses que trabalharam estão colhendo os frutos.
    Outra coisa que estava pensando é que muitos tem plena consciência da realidade, mas preferem se ater à conversa fiada de que as derrotas acontecem por acaso e sorte pois existe um número imenso de fãs médios que pensam assim e que darão seu apoio.
    De qualquer forma, é um problema, que precisa ser reconhecido antes que as glórias do passado passem a fazer parte apenas de um passado distante.

    • Pedro Carneiro

      Acho que o problema é mais da nossa mentalidade do que dos resultados dos bons tempos, pois as mesmas coisas ocorrem em outros esportes também e não somente no MMA. E sim, tem muita gente que fala só pra jogar pra galera

      • Danilo

        Pois é, mas nesse caso de acomodação digo especificamente com relação ao MMA. E se pararmos pra pensar, acomodação também está ligada à mentalidade; uma mentalidade de que não é preciso mais trazer coisas novas, não é preciso mais trabalhar tão duro, e por aí vai.

        • Pedro Carneiro

          exatamente

  • Lero

    Acho que esses textos de opinao deberiam ficar mais fixos no Homepage. E as hard news poderiam rotar mais rápido. Nao acho bom que textos desses como o do senhor Carneiro fiquem ocultos em dois dias para as mesmas noticias que da para acompanhar em qualquer outro site.

    • William Oliveira

      Verdade, a maioria das notícias a gente acaba lendo a chamada e ficando sabendo pelas redes sociais msm..

    • Rafael Oreiro

      Mas o texto ainda tá nos destaques da homepage! Só saiu do principal porque tivemos que abrir espaço para o podcast. Com certeza, se não tiver nenhuma notícia relevante, os textos clássicos do MMA Brasil sempre vão ficar em destaque no site.

  • Até que enfim alguém escreveu o que eu sempre achei. A mídia brasileira também tem sua parcela de culpa nessa aí.

    Que texto excelente!!

    Parabéns, Pedro!!

    • Pedro Carneiro

      Obrigado, fera!

  • Pedro Vytor

    Grande texto. Para mim, acaso é desculpa esfarrapada para não admitir que lutou mal. Se o lutador se machucar e perder por causa disso, o acaso é passível, mas lutar estando 100% e perder, aí não é acaso, ou é mérito do vencedor ou demérito do perdedor.

    Parabéns chará!

    • Pedro Carneiro

      pois é, xará. E o mais estranho é que o acaso só aparece quando o brasileiro perde, quando ganha ele não existe

      • Pedro Vytor

        Pura verdade. Se o Aldo perdeu, foi mérito do Holloway e demérito do Aldo. Simples assim. E para fechar com chave de ouro tem a conspiração que ele perdeu por ter sido comprado kkkkkkk

  • Danielsson

    Perfeito o texto. Tudo isso é parte da mentalidade do brasileiro comum. Ufanista, pacheco e mau perdedor.

    • Pedro Carneiro

      imagina o potencial que nossos lutadores teriam se reconhecessem o que os outros tem de bom também

  • Fabricio Barbosa

    Maravilhoso texto, que expõe toda nossa pretensão, como brasileiros, sobre aquilo que atuamos/competimos. Depois não sabemos porque levamos 7×1.

    Sua análise diz muito não apenas acerca do MMA, mas da nossa mentalidade e forma de proceder como um todo. Parabéns!

    • Pedro Carneiro

      Obrigado, Fabricio! Justamente, se não mudarmos nossa mentalidade, os resultados não vão vir.