A derrota de José Aldo e o maior adversário do MMA brasileiro

Por Pedro Carneiro | 04/12/2017

“Não existem coincidências” e “não existe acaso” são frases repetidas exaustivamente. Se existem ou não, é mais um daqueles mistérios da vida que só os séculos de debate já garantem uma preguiça imensa de entrar no mérito da questão. Porém, existe uma ideia, daquelas que não abandonam a mente, daquelas que evitamos pensar porque sabemos que as conclusões podem dar dor de cabeça, daquelas que a alcunha de “chato” é sempre lançada para o pensador inquieto. Como a teimosia é irresistível, eis a dona dúvida: será que todas as vezes que um brasileiro importante perde uma luta, foi obra do acaso?

Anderson Silva “brincou” e “perdeu por azar”. Vitor Belfort perdeu porque não quis quebrar o braço de Jon Jones. Fabricio Werdum estava empolgado por lutar em Curitiba. Ronaldo Jacaré foi sacaneado com o UFC o enrolando para que chegasse na luta já cansado pela maratona de combates. Renan Barão e Rafael dos Anjos receberam golpes de sorte. Lyoto Machida foi prejudicado pelos juízes. Maurício Shogun não estava de sunga branca e não tem mais vontade de treinar. Rodrigo Minotauro estava machucado. O UFC não quer brasileiro campeão. A luta foi comprada. Recentemente, José Aldo recebeu um golpe de sorte aos 13 segundos e perdeu as duas lutas para Max Holloway porque não queria mais lutar, estava sem vontade de seguir no MMA.

Ora, parece que, além de Deus, o danado do Acaso também é brasileiro. Ou talvez esteja passando férias no Brasil desde o dia em que o pé de Anderson encontrou o queixo de Belfort e não tem mais previsão de volta para casa. Enfim, é tanta coincidência que parece mais uma teoria da conspiração dividida em 15 partes que vemos por aí no YouTube. Mas será que além dessa conspiração dos astros, do destino, da luz e das trevas, existe algum outro motivo pelo qual isso acontece?

Nós sempre dizemos que brasileiro não gosta de esporte, gosta de ganhar. É bem provável que o brasileiro em geral não tenha apreço mesmo é por perder. E se isso fosse apenas no esporte, até que dava para resolver, mas, mais chato que debater a existência da danada da coincidência, é entrar nessa questão.

Então vamos ao que interessa: será que não tem nenhuma chancezinha de um brasileiro perder porque o outro é melhor? Será que Chris Weidman não tem mérito de ter induzido Anderson com os pés paralelos e enganar o olhar do então campeão com um soco despretensioso com as costas da mão somente para o gancho fatal vir invisivelmente? Será que Jones ter colocado o outro braço por dentro do armlock de Belfort não foi a ideia que impediu que seu braço explodisse pelos ares? Será que ser preterido por um atleta que te venceu não é motivo para ele receber a disputa de cinturão e não você? Será que aquela “mão que foi sorte” não é fruto do beijo apaixonado entre a competência e a oportunidade? Será que o UFC não tem mais o que fazer além de armar contra brasileiros e gastar fortunas inimagináveis para combinar lutas? Já repararam que nunca combinam nenhuma lutinha sequer para que um brasileiro vença? Vencemos sempre por mérito e perdemos sempre por algum fator externo provocado pela onipotência da trindade Acaso-Coincidência-Armação.

O momento em que Anderson Silva vai para o tombo e leva junto parte da popularidade do MMA no Brasil

O momento em que Anderson Silva vai para o tombo e leva junto parte da popularidade do MMA no Brasil

Antes que a alcunha de chato e de só querer ter razão seja arremessada contra mim, vamos a um pequeno estudo de caso. Para isso, precisamos entrar numa suposição, ou, como diriam os acadêmicos, um pressuposto. Imagine, querido leitor, um mundo fantástico onde o Acaso, a Coincidência e as Armações não existam. Antes que o ar adentre seus pulmões, lembre-se: é apenas uma suposição.

O nosso estudo de caso será sobre a luta principal do UFC 218, a revanche entre José Aldo e Max Holloway.

Aldo é uma lenda e um dos maiores lutadores da história, é bom deixar isso claro, vinha sendo objeto de estudo da concorrência por mais de cinco anos. Até que um dia a noção de distância de um certo irlandês fazedor e cumpridor de promessas obliterou um gancho afobado. Timing e precisão venceram com todos os méritos e um dos melhores sistemas defensivos foi escancarado por um golpe desequilibrado (entendam com quiser). Após um espetáculo oferecido pelo brasileiro na segunda luta contra Frankie Edgar, Aldo encontrou um havaiano que, através de um grande volume de socos, movimentação e um ritmo alucinante, o nocauteou duramente.

Chegamos então ao UFC 218. José Aldo encheu os corações tupiniquins de esperança com a promessa de que viria diferente, focado e estratégico para a revanche. O final da história foi uma versão que demorou um pouquinho a mais para pegar no tranco da primeira luta. Mais do mesmo ritmo alucinante, mais do mesmo volume e mais um nocaute técnico violento.

Essa seria uma leitura bastante razoável da peleja nesse mundo onde nossa famigerada trindade não existe. Porém, o que aconteceria se a luta tivesse ocorrido no mundo real?

O resultado seria o mesmo. Mas será que a responsabilidade seria de mais uma traquinagem da sorte?

Conor McGregor vê José Aldo desabar a seus pés

É aqui que o ceticismo tenta reunir argumentos para se tornar um exorcismo. De acordo com o dicionário, o acaso é a “ocorrência de acontecimentos incertos, eventuais ou imprevisíveis”. Poderia ser levantado o argumento de que, numa revanche, as chances de algo do tipo ocorrer é menor, mas o que mais reforça o ritual exorcista é que a luta se desenrolou e acabou exatamente da mesma forma que a primeira. Assim como Minotouro e Minotauro são iguais, com a diferença de um estar mais acabado que o outro e lutarem em categorias distintas, Aldo foi surrado por Holloway através da imposição do seu ritmo, volume de golpes, insistência do brasileiro em trocar socos com um lutador que tem mais volume e o uso de um pivô de boxe que o deixava plantado, sem mobilidade. E assim, como no caso dos irmãos Nogueira, José saiu mais acabado do que no primeiro encontro.

José Aldo não mudou quase nada no seu jogo para a revanche e insistiu nos mesmos erros que o levaram à primeira derrota. Uma das definições de loucura é tentar fazer as mesmas coisas e achar que encontrará um resultado diferente. Essa foi a “loucura” de Aldo. Não foi obra do acaso, do azar, da maldade do UFC, do dinheiro, da falta de vontade, mas somente fruto de uma mentalidade que acredita em todas essas obras do acaso, que não foram todos esses detalhes que o derrotaram, mas somente aquele “golpe de sorte”. A coincidência não muda o resultado das lutas, mas acreditar nelas, com certeza sim. Tivemos uma perfeita demonstração disso na revanche. Por acreditar na sorte do adversário, recebeu o azar da competência e do mérito.

Para não dizer que é um caso isolado, tivemos exatamente o mesmo cenário nos dois combates entre Renan Barão e TJ Dillashaw. O brasileiro foi implodido pela movimentação do adversário e duramente nocauteado. A justificativa não foi a dificuldade de movimentação e a técnica polida do oponente, mas a famosa “mão que entrou”. Revanche marcada e, como era esperado, a tal da mão (e muitas outras) entrou e vimos um replay mais violento do primeiro encontro. Mas existiram coincidências, a mesma equipe e a mesma negação da qualidade do adversário.

Até quando essa mentalidade vai permanecer por aqui? Imagine a evolução que o esporte nacional teria se reconhecêssemos nossas falhas e debilidades, e que tudo isso fosse usado para aprender e evoluir. Por enquanto, seguimos com a mesma mentalidade, as mesmas desculpas, a mesma cegueira e fatalmente os mesmos resultados.

Coincidência?