Por Alexandre Matos | 05/04/2017

No próximo dia 8 de abril, quando o MMA estiver com as atenções voltadas para o UFC 210, os fãs mais antigos farão um minuto de silêncio. Dez anos antes, acontecia o último evento do PRIDE Fighting Championships, o PRIDE 34, na lendária Saitama Super Arena.

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Durante seus 10 anos de existência, o PRIDE consolidou alguns dos maiores ícones da história do MMA. Nos ringues japoneses brilharam nomes como Fedor Emelianenko, Rodrigo Minotauro, Dan Henderson, Wanderlei Silva, Maurício Shogun, Mirko Cro Cop, dentre outros reverenciados até hoje pelos torcedores. Porém, para o grosso dos fãs que sustentam o esporte hoje em dia, que tomaram conhecimento do MMA após o fim do PRIDE, muitas dessas estrelas causam estranheza. Eu mesmo já ouvi frases como: “É esse aí o maior de todos os tempos?”, referindo-se a Emelianenko, ou: “Tem certeza que o Shogun era bom mesmo?”, perguntado durante a draga do curitibano no octógono. Daqui a pouco alguém pergunta se Ricardo Arona é o Carlos Kaiser da luta.

Os fãs mais recentes, que são a maioria, estranham quando ouvem que Wand era um nocauteador temido. Acham graça quando sabem que Jon Jones tirou de Shogun o posto de maior meio-pesado de todos os tempos. Não conseguem acreditar que Minotauro poderia ter feito frente a Cain Velasquez. Olhando para os veteranos no UFC, é compreensível a dúvida. Porém, é importante ressaltar que a reputação dos que guerrearam nos ringues brancos era mais do que merecida. Para entender isso e esclarecer o porquê de as estrelas do PRIDE não terem repetido, de modo geral, o brilho no UFC, voltemos no tempo.

Rodrigo Minotauro exibe o cinturão do PRIDE enquanto Mirko Cro Cop deixa o ringue cabisbaixo

Rodrigo Minotauro exibe o cinturão do PRIDE enquanto Mirko Cro Cop deixa o ringue cabisbaixo

Duas semanas antes do PRIDE 34, no dia 27 de março, o presidente Nobuyuki Sakakibara anunciava que a ZUFFA, LLC havia comprado integralmente o PRIDE e todos os seus ativos, o que incluía os contratos dos lutadores – a Dream Stage Entertainment, empresa que detinha o controle do PRIDE, era acusada de ser ligada com uma das principais facções da Yakuza, a máfia japonesa. Dois anos antes, a própria ZUFFA lutava contra a falência, salva pela primeira edição do reality show The Ultimate Fighter. Em 2007, o UFC já era a principal organização do MMA mundial, mas não estava consolidada como nos dias de hoje. Apesar do receio da operação, os fãs finalmente poderiam ver lutas que só imaginavam anteriormente. Com os astros do UFC e do PRIDE reunidos sob uma mesma empresa, confrontos épicos poderiam ser feitos.

A história mostra que não foi bem assim. Ainda que Minotauro e Shogun tenham conquistado cinturões no UFC, a maioria dos que brilharam no Japão, inclusive eles dois, encontraram dificuldades na transição para as regras e o ambiente do MMA norte-americano. Mas por que caras tão bons sofreram tanto nas mãos de oponentes até menos qualificados quando vieram para o Ocidente?

Uma rápida olhada para a foto de destaque desta matéria é a resposta mais imediata. As regras do PRIDE tinham diferenças fundamentais em relação às Regras Unificadas de Conduta do MMA vigentes no UFC. Shogun se notabilizou pelo uso dos pisões voadores. Wand bicou muitas cabeças caídas com os tiros de meta. Esses golpes não são permitidos pelas Regras Unificadas. Ainda bem, aliás.

A diferença nas áreas de luta também tiveram peso considerável na atuação dos lutadores. Com diagonal principal com pouco mais de 9 metros e quase 60m² de área de luta, o octógono tem espaço útil de combate maior do que um ringue, um quadrado com no máximo 7 metros de lado e 49m² de área útil. O ringue do PRIDE era ainda menor, com 20 pés de lado (cerca de 6 metros), ou seja, pouco mais de 37m² de área. Áreas menores favorecem strikers agressivos como Shogun e Wanderlei – lembra da maior incidência de interrupções quando o UFC utiliza os octógonos do WEC, com um metro e meio de diagonal principal a menos? Além disso, os ângulos retos de um ringue facilitam a vida desses strikers na hora de encurralar a presa, o que é bem mais complexo nos ângulos obtusos do octógono e pior ainda no cage circular do Bellator. É necessária uma grande mudança no treinamento para se adaptar ao novo ambiente.

Já imaginou o estrago de um tiro de meta numa cabeça pressionada contra a grade? Num ringue, este risco é minimizado, pois não há um anteparo que pressione a cabeça do atleta contra a perna do adversário. Ou ainda fazer guarda numa luta que proíbe cotoveladas no chão. Aliás, a guarda era um recurso mais eficiente no ringue do que no octógono, pois a falta da grade dá maior mobilidade para quem está por baixo, especialmente se este é alguém como Minotauro. É preciso uma abordagem diferente para manter um guardeiro com as costas no chão num ringue e a riding position dos wrestlers oriundos do cenário universitário americano é bem menos útil no quadrilátero do que no octógono, já que é mais fácil pressionar o oponente contra uma grade rígida do que contra cordas bem mais flexíveis. Não é à toa que wrestlers encontram mais sucesso em cages do que em ringues, ao contrário de jiu-jiteiros.

Ainda podemos falar do tempo de disputa. Os lutadores do PRIDE se preparavam para um interminável round de 10 minutos e para mais um (ou dois) de 5. O(s) assalto(s) mais curtos tinham peso maior na pontuação dos juízes. Isso tudo impacta não só na preparação tática, mas especialmente na física. MMA é um esporte desgastante, como uma maratona. É mais fácil sofrer quedas bruscas de rendimento durante um round de 10 minutos do que num de 5. Num esporte como o MMA, uma queda brusca de rendimento pode mandar alguém para a vala. Num assalto de 5 minutos, é possível imprimir um ritmo mais forte, porque o descanso virá mais breve e por mais vezes. Quando os lutadores do PRIDE passaram para o UFC, tiveram que se adaptar a este novo cenário enquanto enfrentavam gente já acostumada ao esquema 3-de-5 ou 5-de-5. Será que Velasquez conseguiria imprimir seu ritmo doentio durante 10 minutos ininterruptos? E como ele se viraria sem a grade? Será que o enigma Lyoto Machida teria durado tanto tempo numa área de luta menor?

A regulamentação das comissões atléticas e a posterior pressão da USADA também impactaram no rendimento dos atletas. É complicado acusar alguém que nunca foi flagrado num antidoping de ter usado substâncias ilícitas, mas não é segredo que o controle de doping no Japão era risível. Além disso, também é notória a diferença física entre vários lutadores comparando seus tempos de PRIDE com os de UFC – vários deles até baixaram de categoria no MMA ocidental.

Enfim, não faltam motivos para explicar porque lutadores que fizeram sucesso no PRIDE não conseguiram repetir no UFC (e no Strikeforce ou Bellator). Seja lá o motivo, nada apaga o legado construído por eles no histórico ringue branco nipônico.

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