10 Anos Sem PRIDE: Por que as estrelas do PRIDE encontraram dificuldades no UFC?

10 Anos Sem PRIDE: Por que as estrelas do PRIDE encontraram dificuldades no UFC?
MMA

Os retrospectos no UFC de Maurício Shogun, Rodrigo Minotauro, Wanderlei Silva, Mirko Cro Cop, dentre outros, nem de perto lembram o que eles realizaram no PRIDE. O MMA Brasil tenta explicar os motivos.

No próximo dia 8 de abril, quando o MMA estiver com as atenções voltadas para o UFC 210, os fãs mais antigos farão um minuto de silêncio. Dez anos antes, acontecia o último evento do PRIDE Fighting Championships, o PRIDE 34, na lendária Saitama Super Arena.

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Durante seus 10 anos de existência, o PRIDE consolidou alguns dos maiores ícones da história do MMA. Nos ringues japoneses brilharam nomes como Fedor Emelianenko, Rodrigo Minotauro, Dan Henderson, Wanderlei Silva, Maurício Shogun, Mirko Cro Cop, dentre outros reverenciados até hoje pelos torcedores. Porém, para o grosso dos fãs que sustentam o esporte hoje em dia, que tomaram conhecimento do MMA após o fim do PRIDE, muitas dessas estrelas causam estranheza. Eu mesmo já ouvi frases como: “É esse aí o maior de todos os tempos?”, referindo-se a Emelianenko, ou: “Tem certeza que o Shogun era bom mesmo?”, perguntado durante a draga do curitibano no octógono. Daqui a pouco alguém pergunta se Ricardo Arona é o Carlos Kaiser da luta.

Os fãs mais recentes, que são a maioria, estranham quando ouvem que Wand era um nocauteador temido. Acham graça quando sabem que Jon Jones tirou de Shogun o posto de maior meio-pesado de todos os tempos. Não conseguem acreditar que Minotauro poderia ter feito frente a Cain Velasquez. Olhando para os veteranos no UFC, é compreensível a dúvida. Porém, é importante ressaltar que a reputação dos que guerrearam nos ringues brancos era mais do que merecida. Para entender isso e esclarecer o porquê de as estrelas do PRIDE não terem repetido, de modo geral, o brilho no UFC, voltemos no tempo.

Rodrigo Minotauro exibe o cinturão do PRIDE enquanto Mirko Cro Cop deixa o ringue cabisbaixo

Rodrigo Minotauro exibe o cinturão do PRIDE enquanto Mirko Cro Cop deixa o ringue cabisbaixo

Duas semanas antes do PRIDE 34, no dia 27 de março, o presidente Nobuyuki Sakakibara anunciava que a ZUFFA, LLC havia comprado integralmente o PRIDE e todos os seus ativos, o que incluía os contratos dos lutadores – a Dream Stage Entertainment, empresa que detinha o controle do PRIDE, era acusada de ser ligada com uma das principais facções da Yakuza, a máfia japonesa. Dois anos antes, a própria ZUFFA lutava contra a falência, salva pela primeira edição do reality show The Ultimate Fighter. Em 2007, o UFC já era a principal organização do MMA mundial, mas não estava consolidada como nos dias de hoje. Apesar do receio da operação, os fãs finalmente poderiam ver lutas que só imaginavam anteriormente. Com os astros do UFC e do PRIDE reunidos sob uma mesma empresa, confrontos épicos poderiam ser feitos.

A história mostra que não foi bem assim. Ainda que Minotauro e Shogun tenham conquistado cinturões no UFC, a maioria dos que brilharam no Japão, inclusive eles dois, encontraram dificuldades na transição para as regras e o ambiente do MMA norte-americano. Mas por que caras tão bons sofreram tanto nas mãos de oponentes até menos qualificados quando vieram para o Ocidente?

Uma rápida olhada para a foto de destaque desta matéria é a resposta mais imediata. As regras do PRIDE tinham diferenças fundamentais em relação às Regras Unificadas de Conduta do MMA vigentes no UFC. Shogun se notabilizou pelo uso dos pisões voadores. Wand bicou muitas cabeças caídas com os tiros de meta. Esses golpes não são permitidos pelas Regras Unificadas. Ainda bem, aliás.

A diferença nas áreas de luta também tiveram peso considerável na atuação dos lutadores. Com diagonal principal com pouco mais de 9 metros e quase 60m² de área de luta, o octógono tem espaço útil de combate maior do que um ringue, um quadrado com no máximo 7 metros de lado e 49m² de área útil. O ringue do PRIDE era ainda menor, com 20 pés de lado (cerca de 6 metros), ou seja, pouco mais de 37m² de área. Áreas menores favorecem strikers agressivos como Shogun e Wanderlei – lembra da maior incidência de interrupções quando o UFC utiliza os octógonos do WEC, com um metro e meio de diagonal principal a menos? Além disso, os ângulos retos de um ringue facilitam a vida desses strikers na hora de encurralar a presa, o que é bem mais complexo nos ângulos obtusos do octógono e pior ainda no cage circular do Bellator. É necessária uma grande mudança no treinamento para se adaptar ao novo ambiente.

Já imaginou o estrago de um tiro de meta numa cabeça pressionada contra a grade? Num ringue, este risco é minimizado, pois não há um anteparo que pressione a cabeça do atleta contra a perna do adversário. Ou ainda fazer guarda numa luta que proíbe cotoveladas no chão. Aliás, a guarda era um recurso mais eficiente no ringue do que no octógono, pois a falta da grade dá maior mobilidade para quem está por baixo, especialmente se este é alguém como Minotauro. É preciso uma abordagem diferente para manter um guardeiro com as costas no chão num ringue e a riding position dos wrestlers oriundos do cenário universitário americano é bem menos útil no quadrilátero do que no octógono, já que é mais fácil pressionar o oponente contra uma grade rígida do que contra cordas bem mais flexíveis. Não é à toa que wrestlers encontram mais sucesso em cages do que em ringues, ao contrário de jiu-jiteiros.

Ainda podemos falar do tempo de disputa. Os lutadores do PRIDE se preparavam para um interminável round de 10 minutos e para mais um (ou dois) de 5. O(s) assalto(s) mais curtos tinham peso maior na pontuação dos juízes. Isso tudo impacta não só na preparação tática, mas especialmente na física. MMA é um esporte desgastante, como uma maratona. É mais fácil sofrer quedas bruscas de rendimento durante um round de 10 minutos do que num de 5. Num esporte como o MMA, uma queda brusca de rendimento pode mandar alguém para a vala. Num assalto de 5 minutos, é possível imprimir um ritmo mais forte, porque o descanso virá mais breve e por mais vezes. Quando os lutadores do PRIDE passaram para o UFC, tiveram que se adaptar a este novo cenário enquanto enfrentavam gente já acostumada ao esquema 3-de-5 ou 5-de-5. Será que Velasquez conseguiria imprimir seu ritmo doentio durante 10 minutos ininterruptos? E como ele se viraria sem a grade? Será que o enigma Lyoto Machida teria durado tanto tempo numa área de luta menor?

A regulamentação das comissões atléticas e a posterior pressão da USADA também impactaram no rendimento dos atletas. É complicado acusar alguém que nunca foi flagrado num antidoping de ter usado substâncias ilícitas, mas não é segredo que o controle de doping no Japão era risível. Além disso, também é notória a diferença física entre vários lutadores comparando seus tempos de PRIDE com os de UFC – vários deles até baixaram de categoria no MMA ocidental.

Enfim, não faltam motivos para explicar porque lutadores que fizeram sucesso no PRIDE não conseguiram repetir no UFC (e no Strikeforce ou Bellator). Seja lá o motivo, nada apaga o legado construído por eles no histórico ringue branco nipônico.

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  • Leonardo Paz

    otimo texto por sinal!!!
    uma curiosidades sobre as frases de duvidas sobre a qualidade dos lutadores, vieram de uma futura jornalista, que alias viria a ser uma das grandes expoentes do jornalismo de mma do país.

    e diria mais sobre a adaptação do jogo, tem tbem a permissão das joelhadas na cabeça mesmo estando em quatro apoios.

    • Não, só uma frase foi da Fernanda, que eu falei no podcast.

  • Sexto Empírico

    Essa foto do Shogun pulando pra pisar na cabeça de um infeliz (é o Arona?) representa bem, não só o Pride, mas o q era o Vale-Tudo.
    E essa outra foto do Minota, em pleno auge, em pé nas cordas – o equivalente do Pride a montar nas grades do 8 – comemorando seu apogeu, enquanto um tristonho Cro Cop, também no auge, passa lá embaixo, em segundo plano, de cabeça baixa, carregando o peso da a tristeza q eu tive quando acabou o Pride já vale toda a matéria. Simplesmente sensacional.

    Já vi e li várias explicações sobre os motivos dos lutadores do Pride não terem conseguido o sucesso esperado em outras organizações. Acho válidas as questões das mudanças de regras, do ringue pro 8, a questão do doping, etc. No entanto, são explicações que soam mais como desculpas para o falhanço do que justicativas definitivas. Há algo a mais.
    A meu ver, passa pela combinação psicologicofísica dos atletas. Isto é, estariam as estrelas do Pride, depois de se fartarem e conseguirem a glória máxima no Japão, ainda motivadas e com condicoes fisicas suficientes para uma nova empreitada nos USA? Não!
    Houve atletas, sem sucesso no Pride, que brilharam fora dele, como Overeem, Verdum, Anderson Silva, entre outros. Certamente, estes estavam mais focados e ainda famintos pela glória.
    Certa vez perguntaram a Fedor o q fazia ele ser diferente e tão melhor que qualquer outro que ja havia lutado. O russo respondeu: – Minha vontade de vencer, que é (era) sempre maior q a do meu oponente.

    • Juan

      Não acho que são “desculpas”. São fatos mesmo.
      No mais, concordo contigo, o fator psicológico e motivacional tem muito a ver sim, o maior exemplo disso é o próprio Shogun. Depois de você ganhar tudo, é complicado ter a mesma “vontade de vencer”. E também para adaptar os treinamentos e o seu próprio estilo de luta, que até então eram vencedores, é uma barreira enorme.

      • Sexto Empírico

        Então, Juan, acho q me expressei meio mal. Não quis dizer “desculpas” no sentido de tentar livrar o rabo. As mudanças foram fatos mesmo, como vc afirmou, mas não responsáveis totais pelo fracasso. Quis dizer q faltou aquela gana pra se adaptar à nova realidade. Fora q atletas como o Wand já começavam a experimentar a decadência. Foi uma mudança brusca e fora de tempo pra muito deles.

        • Wanderlei chegou no UFC com 31 anos. A decadência era por causa das derrotas pro Cro Cop (um peso pesado) e pro Hendo (um monstro)? O cara chegou no UFC fazendo uma das melhores lutas da história e metendo um nocautão em meio minuto. Será que tava decadente mesmo?

      • O que é “ganhar tudo”? Shogun tinha vencido um GP no PRIDE. Um baita GP, é verdade, mas um GP. O cinturão era do Wand (depois do Hendo) e o Shogun vivia sob a sombra do astro da academia. No UFC, era a chance de brilhar sozinho. Não foi falta de motivação que fez um sujeito de 26 anos lutar mal contra o Forrest Griffin ou Mark Coleman.

    • Vinicius Martiniano

      Também vejo um pouco por este lado de que a motivação pesa mais até do que as mudanças de regras e de fiscalização, até porque, ao passo que alguns lutadores baixaram de peso ao sair do Japão, pessoas como Overeem fizeram é subir de peso…e nessas situações em que parece que já se conquistou tudo, seres como Minotauro se sobressaem, com uma vontade de crescer mais que nem seu maior nêmesis (Fedor) teve.

      • Sexto Empírico

        É uma questão difícil. Foi uma queda de nível muito grande. Parecia praga do Dana White: Cro Cop perdendo pro Napão, um cara travado, q nunca dava um chute, q seria nocauteado a chutes na bunda no K1 se ousasse passar por lá, vencer daquele jeito…. O Wand perdendo ridiculamente pro Leben… O Fedor, então… O Minota ainda conseguiu alguma coisa, mas… melhor parar por aqui.

        • Beto Magnun

          Mas essa do Leben não teve o lance do corte de peso desastroso do Wand?
          Acho que o Gomi é melhor exemplo pra sua fala. Hoje em dia mais ainda… Infelizmente…
          https://www.youtube.com/watch?v=fixEyXsamBA

          • O corte de peso do Wand deve ter feito diferença contra o Leben, mas não foi o único fator e provavelmente nem o mais importante.

        • Cro Cop foi pro UFC com 31 ou 32 anos, tava muito novo ainda pra um peso pesado. E tinha a chance de conquistar o cinturão que o Fedor impediu no PRIDE. Ele tinha motivação pra ir, o GP que ele conquistou certamente não o deixou desmotivado e tampouco o jogou numa glória elevada porque era um título de menor importância, já que o campeão era outro (e o tinha vencido).

      • Tinha motivação de sobra pra muitos deles. Ninguém passou pro UFC muito velho.

    • Sim, é o Arona.

      Sobre as questões apontadas, nenhuma é desculpa, são todas reais.

      Sobre a questão psicológica, eu discordo muito de você. Com o fim do PRIDE, alguns tiveram a chance de recuperar a posição de destaque (Minotauro e Wand), outros puderam sair da sombra de amigos/parceiros (Shogun), outros puderam finalmente conquistar um cinturão relevante (Cro Cop). DUVIDO que algum deles tenha ido pro UFC apenas pra ganhar dinheiro, até porque nenhum estava velho a este ponto.

    • Ricardo Sedano

      Quando rolou aquela galera do UFC indo para o Pride algum deles foi bem sucedido? Eu acho que não (realmente acho, não tenho certeza). Boa parte da justificativa pode ser a mesma. é umito diferente você lutar em ring e em octógono e a diferença de espaço para movimentação faz bastante diferença dependendo do estilo do lutador.

  • James sousa

    qual modalidade base se adaptava melhor nas regras do pride ?

    • Nenhuma mais destacada sozinha. Alguns estilos eram beneficiados, sem fazer diferença qual modalidade de base o cara tinha.

  • Idonaldo Gomes Assis Filho

    Esse texto tá me lembrando o Gomi que ultimamente tá com o nome um pouco em baixa, pelo que eu li em outros textos o cara era um demônio, e agora nos cages (juntando um pouco com a idade) virou um lutador bem vencível, imagino que a adaptação deve ser muito foda mesmo e o rendimento não seja igual

    • Gomi começou a decair antes do UFC.

      • Idonaldo Gomes Assis Filho

        Que pena, o estilo dele empolgava

  • Lorenzo Freitas

    O visual do ringue branco, o anuncio em japones, um ginasio com 30 mil pessoas em silencio, ouvindo cada passada no ringue, Pride FC era foda

    • E não adianta dizer que o RIZIN resgata aquela atmosfera porque tá bem longe.

      • Lorenzo Freitas

        Verdade, assisti os eventos do Rizin e nem se compara, o pior que nao sei dizer o que o Rizin tem que fazer para ter essa Atmosfera heheah

        • A atmosfera era muito ajudada pelos lutadores que faziam parte, não acha?

  • Bruno Fares

    Baita texto!

  • Danilo

    Bom, acho que esse vídeo demonstra com muita clareza o que foi dito no texto. Deem uma conferida
    https://www.youtube.com/watch?v=ZQ4l0HSHzn4

  • Danilo

    Bom, acho que esse vídeo demonstra com bastante clareza o que o que é dito no texto. Pra quem quiser dar uma conferida

    https://www.youtube.com/watch?v=ZQ4l0HSHzn4

  • Fernando

    Muito bom texto.

    Eu acrescentaria:
    excesso de confiança e menosprezo aos adversários;
    Nível maior dos adversários e maior profissionalismo (pride tinha os losers)

    Vi Crocop sofrer com excesso de confiança e menosprezo aos adversários. Outro que sofreu foi Shogun contra o Forest Griffin. Achou q ia bater no cara na casa dele, achou q ia ganhar de véspera, que o cara ia ter medo…passou foi vergonha e ganhou um galo igual do JLB na luta contra o Cyril abdi. Outro que tb sofreu do mesmo mal foi o Minota com aquela guarda baixa não só contra o Veslasquwz mas contra o Mir tb.

    Acho que somaram-se os fatores inerentes às mudanças nas regras, no ambiente etc, com fatores que foram culpa doa próprios atletas tb de nao terem mentalidade correta, talvez por chegarem com o ego inflado demais na nova organização.

    • Nível maior no UFC foi só um pouco depois pra alguns.
      Excesso de confiança e menosprezo, pode ser mesmo.

  • Marco antônio

    Baita texto!

  • Ricardo Sedano

    Também não pode ter influenciado nisso o número de batalhas que os maiores icones do Pride já haviam feito no japão? Em casos como Minotauro e Wand, eles já haviam passados por verdadeiras guerras que não há como não deixar sequelas e essas ajudaram que eles não tivessem o sucesso que tiveram no evento japones.